Para quem teve Marechal Rondon é difícil imaginar
o "apagão"
Pedro Francisco Moreira *
De dois anos para cá,
a expressão "apagão logístico"
tem sido utilizada diariamente para indicar as mazelas da
infra-estrutura de transportes e dificuldades de escoamento
da produção. Nela, ha três significados
claros: trata-se realmente de uma bem-cunhada frase; a infra-estrutura
nacional clamorosamente está mambembe: e o Brasil ainda
não mostrou, de forma consistente que quer eliminar
tais gargalos.
Acredito piamente que o problema está muito
relacionado à logística, e logística,
de uma forma simplificada e ilustratuva, pode ser entendida
como a ferramenta que não só torna fácil
o ir-e-vir de matérias-primas, informações
e produtos, mas também os coloca sempre à disposição
no local e na hora em que sâo exigidos.
Em ritmo de emergência, o governo tem anunciado
investimentos módicos para combater a "fome"
da nossa infra-estrutura, o que não deixa de ser relevante,
pois o Brasil precisa atacar as emergências, fazer a
lição de casa que estava muito atrasada, e isso
não será tarefa fácil, pois demandará
investimentos vultosos, incluindo os recursos a serem gerados
pela Parceria Público Privada.
O problema é que isso, isoladamente, não
basta para o nosso País. É preciso pensar a
logística dentro de um Plano Estratégico para
o Desenvolvimento da Logística Nacional, que contemple
a curto prazo, através das atenções às
contigências, ações emergenciais, ajustes
e direcionamentos como estamos começando a ver no momento.
No médio prazo, deve-se dar atenção à
transição de modelos e no longo prazo, com horizonte
de 10 e 15 anos, deve-se direcionar o foco para sustentabilidade
do sistema logístico brasileiro.
OS TRÊS PILARES DO PLANO
Acrescento ainda a meu raciocínio que esse
plano não pressupõe atenção exclusiva
ao transporte, mas a todas as áreas que compõem
a logística nacional. Assim, ele concentraria esforços
em três pilares fundamentais: a vocação
logística e matriz de transportes dos estados e seus
municípios-chave; os negócios atuais e as oportunidades
econômicas regionais, incluindo criação
de cluster e pólos; e os eixos de exportação
associados ao desenvolvimento do comércio exterior.
Esse plano, se bem estruturado, pode ser uma arma poderosíssima
para a alavancagem planejada e coordenada de oportunidades
econômicas regionais.
Há consenso entre especialistas que necessitamos
investir algo em torno de US$ 80 bilhões nos próximos
10 anos para colocar nossa infra-estrutura de transportes
num nível aceitável. Entretando, não
tenho dúvidas de que tais investimentos não
surtirão resultados para o desenvolvimento do País
se não estiverem vinculados a um plano articulado entre
o governo federal, estados, municípios, entidades de
classe e a iniciativa privada.
Para quem teve um Marechal Rondon é difícil
imaginar que um "apagão" esteja a incomodar
tanto. è que o marechal, que viveu 92 anos, promoveu
verdadeira revolução no Brasil. Geógrafo,
fez levantamento de milhares de quilômetros de terras
e águas, determinou longitude de mais de 200 localidades,
increveu no mapa do Brasil mais de uma dezena de rios até
então desconhecidos e corrigiu erros grosseiros sobre
o curso de outros tantos. E ainda instalou milhares de quilômetros
de linhas telegráficas.
Rondon foi muito mais do que icone nacional. Seu
nome está inscrito em placa de ouro na Sociedade Geográfica
de Nova York, como o maios estudioso e explorador das terras
tropicais. É por isso que, se estivesse vivo, o "apagão"
logístico sequer teria acontecido, é que Rondon
também era pura logística.
* Presidente do conselho de administração da
Associação Brasileira de Movimentação
e Logística (ABML) e diretor-geral da Chep do Brasil.